Jailson Brito – “Perceber o impacto da covid19, no nosso sistema de saúde”.

Jailson Brito – “Perceber o impacto da covid19, no nosso sistema de saúde”.

Partilhar

“Perceber o impacto da covid19, no nosso sistema de saúde”

O coronavirus vai sempre existir, da mesma forma que existem outros virus. O impacto indirecto da covid19, levou muitos doentes a terem suas consultas adiadas. Jailson Brito, é Doutorado em Ciências da Vida e da Saúde (especialidade em Biologia Molecular) pela Universidade de Estrasburgo (França). Residente em Inglatera, o cientista cabo-verdiano, fez um artigo científico com os resultados de uma descoberta, que é o primeiro autor. Esta descoberta saiu na revista Science, a mais prestigiada revista científica dos EUA e uma das mais prestigiadas revistas científicas do mundo.

VV: Quem é Jailson Querido?

JQ: Sou um cabo-verdiano, natural da ilha de Santiago, de São Lourenço Dos Órgãos, fui estudar para Portugal, onde fiz a licenciatura, o mestrado, ainda iniciei um primeiro doutoramento, no Instituto de Higiene e Medicina Tropical. Onde foi o sítio que comecei a dar os primeiros passos na investigação científica. Depois fui para a Espanha, para continuar com a minha investigação, como estou sempre a mudar de país, acabei por ir para a França onde fui fazer o doutoramento e, hoje, estou aqui no Reino Unido. Portanto sou mais um cabo-verdiano na enorme diáspora que nós temos.

VV: Explica-nos como aconteceu a descoberta que fizeste foi publicada na Science, a melhor revista científica mundial?

JQ: Fiz uma descoberta científica. Todos nós recebemos informações genéticas dos nossos país, e essa informação que recebemos está codificada no nosso gene. Aquilo que chamamos de ADN, que é a mesma coisa que o DNA. Então toda a nossa informação genética que está armazenada, está lá, mas codificada. Para que se defina tudo sobre nós, a cor dos nossos olhos, a cor da nossa pele, a nossa altura, quantos braços vamos ter ou seja para que se defina tudo sobre nós, toda essa informação que recebemos dos nossos pais têm de ser descodificada, e a descodificação dessa informação é feita pelo “ribossomas”. Então, nesse trabalho que nós publicamos na revista da Science, nós conseguimos reconstituir um momento em que se dá, a descodificação da informação genética, em humanos e com isso resolvemos a estrutura, o que acabou por ajudar-nos a compreender uma importante questão da biologia molecular. A Science de acordo com os seus critérios, quando existem descobertas científicas, fazem uma seleção das 3 melhores descobertas a nível mundial e publicam.

VV: O novo coronavírus, provoca a doença covid19, entretanto as pessoas sem sintomas da doença, tecnicamente não estão doentes, apenas infectadas. Como cientista, achas que a investigação epidemiológica que se está a fazer em Cabo Verde, de englobar nos resultados os recuperados assintomáticos e sintomáticos é o melhor método?

JQ: Vou dividir por partes, para compreendermos o porquê deste novo coronavírus. Quando dizemos que o sars cov2 (novo coronavirus) sempre existiu isso é ambíguo, porque o coronavírus sempre existiu, como vai existir sempre. Mas, esse novo coronavírus é um vírus novo que surgiu. Como é que ele surgiu? Surgiu de uma mutação do vírus que existia antes. Essa mutação permitiu que esse vírus passasse a infectar os humanos e a provocar essa doença. Agora, vamos à parte de quem teve contacto ou não. Isso é a verdade, para esse novo vírus e a verdade para qualquer outro vírus, nem todas as pessoas que entram em contacto com o vírus ficam doentes, aliás, para a grande maioria dos vírus que conhecemos o nosso sistema imune vai facilmente dar conta da grande maioria dos vírus, mas há outros vírus que são mais agressivos contra o nosso sistema imune. E, neste caso, esse vírus é bastante infeccioso. Quando se fazem os testes, faz-se para a procura do vírus e ai as pessoas que já estiveram em contacto com o vírus, se detectadas através de testes anti-corpos, mas se o vírus não chegou se calhar nem a replicar nessas pessoas e nunca provocou sintomas nem leves. O mais certo é mesmo os testes de “PCR” que se faz hoje, em dia. A questão de englobar toda a gente que já teve contacto com o vírus no mesmo grupo é que muitas pessoas apresentam sintomas, muito leves que podem nem sequer dar conta, ou outras que se calhar tem só uma noite de febre e nem sequer sabe, se foi este vírus ou não. Mas, o facto dessas pessoas não apresentarem sintomas, ou sintomas leves, não significa que essas pessoas não vão transmitir a doença aos outros, daí a importância de fazer um estudo, de saber toda a gente que já esteve em contacto com o vírus, ou em contacto com pessoas que já tiveram o vírus, porque aí podemos fazer o melhor controle epidemiológico, porque outra vez o facto de uma pessoa não apresentar sintomas, não significa que não transmite, daí acredito ser importante haver estudos sorológicos para ter a noção, a proporção da população que já teve em contacto com o vírus, porque aí pode-nos ajudar a ter melhor estratégias para a prevenção da infecção com este novo coronavírus. Acho que englobar os assintomáticos e sintomáticos, quando “recuperam” na lista de recuperados da doença, é uma questão de nomenclatura, o importante é ver as pessoas que deram positivo, saber se ainda estão com o vírus activo naquele momento. Há duas hipóteses ou o vírus se calhar teve fraca replicação nessa pessoa ou seja a pessoa nunca chegou a apresentar sintomas, ou a pessoa teve sintomas muito leves que nem sequer deu conta. E, como os médicos, não estavam lá para saber se essa pessoa sequer teve febre muito baixa, ou outros problemas, porque existem vários outros sintomas. Por não haver forma de controlar tudo isso, é uma mera questão de nomenclatura, para ter um maior controle epidemiológico e saber a escala da propagação do vírus.

VV: Neste momento, segundo a instituição pública de saúde, vai-se realizar um estudo para saber o comportamento desse vírus em Cabo Verde. Para si, o que precisamos e ao nosso alcance para sabermos como “tratar”, sendo que o vírus sofre mutações, e tendo em conta que em outros países, como a Itália teve muitas mortes?

JQ: Primeiro é estudar o vírus em Cabo Verde. Acho extremamente importante e não sei o que é que está a ser feito neste momento em Cabo Verde, mas acho que ao menos estudos a nível de saúde pública deve ser feita. Mas, também a nível de biologia molecular também seria extremamente interessante, é óbvio que em Cabo Verde ainda não temos condições para fazer a sequenciação do vírus no país para ver as mutações que o vírus já sofreu, mas acredito que em colaboração com países como Portugal, seria interessante e, ver as mutações que o vírus sofreu desde a sua chegada a Cabo Verde. Isso não terá um impacto significativo no tratamento porque aquilo que nós estamos a perceber é que esse vírus sofre mutações como qualquer outro vírus que pertence a ” essa família”, mas não são mutações muito significativas que vá mudar muito radicalmente o comportamento do próprio vírus. Então a nível de tratamentos e de vacinas, eu acho que as mutações que o vírus sofre em Cabo Verde não vai influenciar, mas para termos um melhor conhecimento sobre as variações que o vírus está a sofrer no país, acho que seria muito interessante em colaborações com grupos no exterior ter um estudo de biologia molecular para compreender sobre as mutações. Por exemplo, em regiões como a Madeira, e em várias zonas de Portugal, isso está a ser feito, na verdade em todo mundo para perceber as variações que o vírus sofre, se bem repito, isso não vai ter um enorme impacto a nível de tratamentos, ou de vacinas. Aquilo que o país pode fazer dentro das condições que temos, e com as pessoas que temos é um estudo a nível de saúde pública para o impacto que a presença do vírus está a ter, não só nas pessoas com covid, mas também as pessoas que sofrem de outras patologias que por esses dias deixaram de receber os cuidados médicos que deveriam. Isso é um importante estudo que deve ser feito. Há muitas pessoas que por esse tempo por medo, deixaram de ir ao hospital, aos centros de saúde, então seria muito interessante um estudo a nível de saúde pública para perceber o impacto que o vírus está a ter nos cuidados de saúde que as pessoas estão a receber para outras doenças. Ou seja o impacto indirecto, porque muitas vezes centramos muito no impacto directo, mas muitas vezes o impacto indirecto é ainda muito superior.

VV: Em Cabo Verde temos uma população jovem, ao contrário de vários países europeus, onde o vírus matou mais os idosos. Sendo que o grupo de risco, são pessoas acima de 60 anos, e nós temos uma população jovem, que leitura faz sobre isso, tendo em conta que neste momento já contabilizamos total acumulados, cerca de 5 mil casos de covid19?

JQ: É importante separar dois pontos, é que a idade tem influência e, outras condições de saúde, isso afecta o quanto severo a doença vai ser. Se a pessoa já está com o corpo, o sistema debilitado é claro que o vírus vai ter um impacto muito maior. Mas, na questão de ter ou não ter o vírus, isso ai a idade não tem nenhum peso. Existem alguns estudos que dizem que as crianças podem ser menos propensas a infecções, mas isso ainda é preciso muito mais estudos para compreender isso. Do resto qualquer pessoa adulta tem a mesma probabilidade de ficar infectada com o vírus, depois como vai reagir ao vírus, isso é outra coisa diferente. No nosso caso temos que perceber também um pouco a densidade urbana que existem em cidades como a cidade da Praia e as condições de habitação, isso também não ajuda na prevenção, daí que, umas das coisas que o ministério da saúde fez, achei que era importante é que quando as pessoas estavam infectadas eram transferidas para centros de acolhimento onde ficavam o período de quarentena. Obviamente que para algumas pessoas se calhar isso não faz sentido, mas para um certo segmento da população faz sentido, porque se uma pessoa vive numa casa com 8 ou 10 pessoas e a casa só tem 1 ou 2 quartos, e 1 casa de banho para todos, é óbvio que se um ficar infectado, depois vai transmitir a doença a todo o resto da família. Então essa medida foi importante, porque se reparou o vírus em Cabo Verde, a ilha e a cidade que está a ser “mais castigada”, é cidade da Praia, não porque o vírus “gosta mais dos praienses”, mas tem haver com a densidade populacional e a nossa própria organização urbana.

VV: Em outros países, como Senegal não seguiram totalmente recomendações da OMS (Organização Mundial de Saúde). Na sua opinião que leitura faz dos trabalhos que estão a ser feitos aqui, com as condições que temos sobre a investigação epidemiológica, de testar os sintomáticos e isolar?

JQ: Olhando para a realidade do país, acho que Cabo Verde tem feito um esforço muito grande, aliás em alguns casos eu acho que está a ser feito um pouco demais, e não de forma racional como eu gostaria que as coisas fossem feitas. Hoje, vamos passar a ter se calhar laboratórios de biologia molecular, em todas as ilhas, eu gosto mais de pensar as coisas a longo prazo, mas isso é uma estratégia do governo e ninguém pode acusar o governo por fazer demais. Podemos acusar por fazer de menos, mas por fazer demais, é melhor fazer demais do que não fazer nada. Então acho que o país tem feito um esforço muito grande, principalmente um país que vive com uma economia muito assente no turismo, e o turismo está praticamente parado, mas mesmo assim está a fazer esforços, que claro vai ter que ser pago, muito provavelmente nas próximas décadas. A nivel que enquanto cientista nas áreas médicas, eu acho que tem feito um esforço muito assinalável, para tentar controlar a transmissão da doença, é claro volto a repetir há coisas que fogem ao controle. E, nós estamos a ver países que com muito mais condições e, não estão a conseguir controlar o vírus, porque é um vírus bastante infeccioso e para regiões com a enorme densidade populacional a transmissão dá-se muito fácil e nós temos que começar a tirar um pouco do ônus sobre quem faz as medidas, e por o lado das pessoas. As pessoas tem que colaborar mais, é preciso que as pessoas compreendam, nós só vamos conseguir dominar este vírus ou se tivermos uma vacina, ou então até termos uma vacina vai depender do comportamento das pessoas. É fácil perguntar porque é que regiões como o Macau teve o enorme sucesso no combate ao vírus, temos que ver, se calhar o comportamento das pessoas também tem um forte impacto no controlo desta e de qualquer outra infeção.

VV: Falaste que é mais difícil a prevenção se tiver menos condições sanitárias. Quanto aos materiais individuais, para prevenção como a máscara, álcool gel que custam. O que achas sobre esta medida de proteção individual se uma família tiver falta, não é um factor para menos prevenção?

JQ: Sim, sem dúvida nenhuma. Porque no início desta pandemia ainda havia muita questão sobre usar ou não a máscara, mas hoje sabemos muito mais sobre a forma de transmissão. Daí hoje, uma esmagadora maioria da classe científica defende a utilização de máscaras, daí ser importante as pessoas terem acesso a esses meios de proteção. E, se calhar para as pessoas que não tem condições de adquirir, aí já é o papel do estado para que tenham condições de adquiri-las. A questão do álcool gel isso faz diferença se as pessoas não tiverem como lavar as mãos. Quando estamos na rua não tem uma casa de banho a cada 100 ou 200 metros, por nao ter, é importante todos os espaços públicos terem álcool gel para sempre que alguém entre nesses espaços desinfecte as mãos.

VV: Na sua opinião o que Cabo Verde precisaria para melhor tratar doenças crônicas?

JQ: Isso é uma velha questão na verdade. Devo dizer é aquilo que todos os outros países fazem, que é investir no sistema de saúde. Cabo Verde tem que fazer mais investimentos nos sistemas de saúde, os nossos hospitais têm que ter melhores condições para tratar as pessoas, durante muitos anos, investiu-se muito em infraestruturas, mas infraestruturas a nível de saúde não houve assim grandes investimentos como aconteceu em outras áreas. Daí é importante reforçar o investimento na área da saúde, porque não podemos continuar com evacuação dos doentes para Portugal, e muitas vezes até chega a ser triste ver cabo-verdianos a pedirem para serem evacuados para o Senegal, ou para Portugal com questões que se calhar facilmente poderiam ser tratadas aqui. Acho que é preciso maior investimento na saúde, para poder-se tratar de todas essas doenças aqui. Avançou-se muito na área da saúde, é verdade, mas ainda há um longo caminho a percorrer.

VV: A TAC (Tomografia Axial Computorizada) é um importante aparelho para diagnóstico. Entretanto mesmo quando está a funcionar, o resultado terá de vir de Portugal. Isso não representa dificuldades no trabalho dos médicos?

JQ: Isso simplesmente já nem deveria acontecer. Isto, nos dias de hoje, sequer deveria ser um tópico, é um assunto que já deveria ser resolvido, uma questão do passado. Não faz sentido, estamos em 2020, e continua a ter carências em algo tão essencial. É daquelas áreas que é preciso urgente haver um forte investimento. Não é só a TAC, mas também ressonância magnética muitas vezes temos doentes que vão de Cabo Verde, só depois de chegarem a Portugal é que vão fazer uma ressonância magnética para se ter uma melhor noção do problema. Acho que é preciso no geral um maior investimento na saúde e espero que venha a acontecer nos próximos anos.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.