O povo cabo-verdiano dança de forma espontânea, mas ao mesmo tempo que gosta de dança não a conhece muito, especialmente enquanto arte. O nosso entrevistado desta semana é coreógrafo, dançarino e também bailarino. Conta-nos as várias facetas da dança. “Como aqui existe o natural, uma espontaneidade, movimentos espontâneos que “casa” com a música com ritmos que fazem parte do nosso povo, que é um povo muito mexedor, muito quente, que explora o corpo, tem uma relação corporal muito intensa”…
Não perca essa entrevista com Djam Neguin.
VV: Como é que vieste ao público dançar?
DN: Acho que desde quando comecei, porque sempre trabalhei com uma dança muito cénica. Tínhamos um grupo em que o objectivo era sempre representar, ou era nas festas da escola, da páscoa, ou no natal. Comecei mais nas danças urbanas, isso fez com que tivesse sempre contacto com o público.
VV: Em que momento encaraste a dança de forma profissional?
DN: Penso que foi talvez um pouco antes de eu ter vindo para Cabo Verde, vivia antes em Portugal, voltei há cerca de 9 anos. No fundo foi num momento que eu tive de decidir entre ter uma formação superior, ou ir para uma escola de dança ou escola de teatro em Lisboa. Acabei por ir fazer as provas para escola de teatro, porque achava que não ia conseguir a de dança, por causa das exigências do ballet clássico, nunca tive essa experiência. Mas, no meio do caminho acabei por decidir pela escola de teatro, depois fui selecionado. No meio do percurso apercebi-me que tinha feito a escolha certa, por assim dizer. Descobri como é que afinal eu queria trabalhar a dança. Uma dança de teatro, queria trabalhar o teatro, mas não daquela maneira que estava a fazer antes, porque queria também trabalhar uma dança cênica também, uma dança que pudesse falar de outras formas, de outras liberdades corporais. Sempre tive um pé na dança no lado mais de entretenimento, mais urbano, o lúdico, e um outro lado, uma dança mais consensual, mais de pesquisa, de questionamentos, mais de exploração de oportunidades que a dança permite enquanto arte.
VV: Explica aos cabo-verdianos, o que significa dança?
DN: Isso é uma grande pergunta (risos), acho que é uma pergunta que aparentemente pode parecer simples, para uma pessoa que trabalha com dança, mas ao mesmo tempo é uma pergunta muito complexa. Vou tentar fazer um apanhado de uma maneira simples. A dança é a arte de conseguir através de uma organização corporal, uma organização corpo espaço/ corpo tempo/ a partir de um corpo que se move e nesse movimento existe um dizer que se vai configurando, com uma característica muito própria, e desenvolvendo de uma maneira que se consegue distanciar do que podemos chamar de um movimento comum. A dança é um movimento sim, mas é um movimento com outro significado, com outra potência, é dar a esse corpo que usamos diariamente uma outra potência, uma outra direcção, explorando essa grande pro-atividade que o corpo também tem enquanto ferramenta de comunicação. A dança no fundo é uma arte, que tem que ter um corpo, e nesse corpo ele permite-te ser portador de diversas possibilidades de movimento que vão depois, conforme cada dança ligar com questões culturais, individuais de cada um. Porque para cada dança, um corpo responde de maneira diferente, para cada movimentação, é uma realização do ritmo, do do sentimento, da emoção em forma muito específica. Até parece que é tão fácil exprimir a dança, mas não é assim…
VV: Os cabo-verdianos gostam de dança. Dançar faz parte da nossa cultura, entretanto a dança que nós expressamos num ambiente musical, é diferente da dança enquanto arte. Na sua opinião como vemos e sentimos a dança enquanto arte?
DN: Não havendo uma educação cultural, por assim dizer, porque como disse anteriormente a dança acaba por ocupar determinados significados em determinadas situações. Porque a dança, temos a que é cénica, falando de dança popular, espontânea, não é a dança somente do corpo. Mas, quando queremos trabalhar esse corpo, precisamos conhecê-lo, perceber como é que pode ser utilizado para determinados fins. Como aqui existe o natural, uma espontaneidade, movimentos espontâneos que “casa” com a música com ritmos que fazem parte do nosso povo, que é um povo muito mexedor, muito quente, que explora o corpo, tem uma relação corporal muito intensa, nós temos uma aptidão para essa movimentação, para esse querer mexer nos ritmos. Mas, isso é um saber espontâneo e não especializado e como não existe essa especialização, não temos um entendimento, mas sim como uma forma de terapia. Penso que não há um legítimo entendimento do que pode ser mais, ficamos sempre no espontâneo. É como quando ouço dizer, todo o cabo-verdiano é um dançarino, mas será que é verdade ou como distinguir essa capacidade supostamente nata de alguém que quer ser profissional, que quer levar a dança para outra dimensão? Não temos escolas, formações, que possam trazer um saber mais profundo, acho que ainda temos um grande caminho a percorrer, de educar, de conhecer a história da dança. E conhecer as nossas próprias danças, que não existe um estudo, um entendimento mais profundo de forma que isso possa ser defendido como arte. Não quero dar a palavra valorização, mas precisamos mesmo de entendimento e saber da dança enquanto arte.
VV: Essa valorização, ou entendimento como dizes, mudava essa visão “simplista” que temos sobre a dança ?
DN: Se o outro não tem disponibilidade ou interesse por exemplo, em apreciar a dança, acaba por haver essa visão. Não existe em Cabo Verde uma formação de clubes para apreciar essa separação. quando alguém diz, eu sou bailarino, isso soa nas pessoas “como nada”, porque as pessoas não vem no bailarino uma pessoa com uma capacidade de comunicar algo. É um conjunto de vários factores, que fazem com que a dança possa ser representada, como o batuque, levá-la à cena é muito delicado porque é incorporado naquela vivência social, cultural, depois passar isso para a cena mantendo a mesma não irá tornar tão interessante se as pessoas que forem trabalhar isso. Não entenderem que para o outro, para apresentarmos uns aos outros, nós temos que reinventarmos de uma maneira diferente. Para inventar novas formas de dizer o que está lá a acontecer, para podermos conhecer novas formas de comunicação, novas formas de leitura, novas formas de falar sobre nós mesmos, dos nossos problemas, das nossas emoções…
VV: Podemos dizer que a dança também é uma terapia?
DN: Sim, podemos dizer. Uma das coisas que eu defendo, a arte nunca vai ter o mesmo significado. O que acontece há uma dança que se volta mais para o aspecto terapêutico. E, como estava a dizer, é como que cada um vai pegar na arte, a dança para levá-lo a um caminho da sua conveniência ou das suas sensibilidades, Há pessoas que procuram a dança como fins para aeróbica, para perder peso, outros procuram para um aspecto mais terapêutico, mais espiritual, outros procuram para socialização. A dança pode ser terapêutica sim, se ela for trabalhada nesse sentido. O que acaba por acontecer é que a dança permite um estado de presença a que estamos todos os dias acostumados a fazer, então ela nos “desliga” para conectarmos num outro tipo de comunicação, outro tipo de consciência. ela libera no corpo hormônios, etc…
VV: A dança no sentido de arte, de espectáculo. Valorizamos essa arte?
DN: Como não existe muito essa produção, acaba por ser muito ingrata quem procura a dança enquanto espectáculo. Terá de procurar espaços e oportunidades para desenvolver, porque não existe um consumo. Esta dança de espetáculo é o que mais cobre o aspecto mercadológico, precisa de retorno, quem faz um espetáculo gira em torno de uma indústria, uma montagem. Existe esse trabalho, talvez as estruturas culturais investissem mais, “formar plateia” de forma que as pessoas ganhem o gosto de sentirem entretidas ao ver a dança.
Não existe esse “estatuto” de assumir e dizer eu sou bailarino, como acontece com o grupo “Raiz de Polón”. Eles obtiveram esse “estatuto” porque assumiram-se como tal. E, quando nós nos assumimos como tal, é mais rápido as pessoas nos reconhecerem. Os outros não se assumem, como os bailarinos nos hotéis, trabalham nisso, mas não se assumem como bailarinos.
VV: Nesse percurso de bailarino ou dançarino o que trouxeste da dança para cabo verde ?
DN: Risos. Acho que sou os dois. Desde que voltei dediquei-me muito na dança urbana, no qual criei uma associação. Acho que fiz muitas coisas diferentes, novas, criei um espaço que possibilitou muitos eventos, gerou interesse e reconhecimento das pessoas também. Assumi vários projectos, levei o nome de Cabo Verde a nível internacional, sobre eventos e concursos de dança. E, acabei por assumir, eu sou coreógrafo, eu sou bailarino, quando precisam de dança apontam o meu nome, porque eu assumi e trabalho com isso.
Quem é Djam Neguin, o teu nome verdadeiro nome?
DN: Quem sou eu (risos). O que a vida me permitir e vou vivendo a vida com todo o seu movimento. Meu nome é Bruno Amarante.
