Parece o Bond, mas é o James, o nosso James Ramos. De espírito altruísta, técnico da engenharia civil, mas que domina as letras. Pensa lançar dois livros, um dos quais um romance. Quer ver um mundo com mais amor e valoriza muito a mulher cabo-verdiana. Conheça um pouco sobre James Ramos, o seu lado “verso” poético.
VV: Como é que te defines?
JR: Uma pessoa sensível, humana, preocupada com o mundo, suas gentes e os seus problemas.
VV: És formado em engenharia civil, entretanto tens uma veia poética, como explicas ser da área técnica e dominar bem as letras?
JR: Em boa verdade, o meu pai é professor de inglês, formado numa área já extinta na vertente inglês e alemão, filologias germânicas. Desde muito cedo, acabei por ter esse fascínio pelas línguas, pelo contacto que sempre tive com ele, acabava junto com ele fazer os “tpcs”, algumas reportagens gravadas e eu ficava sempre ao pé dele. Isso fascinou-me, as línguas e as expressões da comunicação. Numa fase posterior vim a conhecer os escritos da minha avó paterna. Ela tem umas quantas publicações que me pus a ler do princípio ao fim, por ordem cronológica e despertou em mim uma ânsia de querer muito mais da literatura. Comecei a ler desde muito cedo e de tudo, o que fez com que desde cedo tenha tido um contacto profundo com as letras, mais do que propriamente com a engenharia. A parte da engenharia herdei do meu avô materno, que sempre trabalhou na Shell, e sempre que podia o acompanhava a muitas operações, via aquele emaranhado de actividades e de comandos. Sempre tive também esse “bichinho” de desmontar coisas, brinquedos, acabei por ficar ligado às áreas. Eu quis seguir a área do meu pai, mas ele foi o primeiro a não me incentivar a tal. Disse-me que tendo eu essa vertente técnica, por que não enveredar por essa vertente e como hobby continuar com o mundo das letras. E foi o que fiz e, até hoje, penso que foi uma boa opção, por não ter excluído a parte técnica e me ter embrenhado somente na literatura, no seio das letras.
VV: Já pensaste em lançar algum livro?
JR: Já pensei em lançar dois…(risos). Pensei primeiramente numa coletânea, já que tenho algo escrito que perfaz um bom volume, penso eu. E tenho também um romance que ficou pausado no segundo capítulo e há cerca de 3 anos que não pego nele para o ler e o continuar, mas penso que em 2021 terminá-lo-ei.
VV: Já tens o título do romance?
JR: Ainda não tenho o título porém tenho toda a história, todo o enredo.
VV: A história baseia-se em quê?
JR: É uma ficção baseada em vidas próximas, as dos meus quatro avós. Portanto, é uma ideia que surgiu, porque sempre tive um contacto muito próximo com os meus avós, maternos e paternos, então a ideia surgiu de louvá-los e honrá-los desta forma, mas sendo uma ficção com uma base real porque é algo que eu conheço e venho sempre vivenciando desde criança com as inúmeras histórias visto que cada um deles cresceu numa ilha. Por exemplo, a minha avó paterna, nasceu e cresceu na Assomada até os seus nove anos, depois veio para São Nicolau. O meu avô é de São Vicente, do lado paterno. Do lado materno o meu avô nasceu em São Nicolau e cresceu no Sal, e a minha avó materna nasceu e cresceu em São Nicolau portanto a minha ideia também é trazer um pouco a caboverdianidade de todas essas ilhas que me foram transmitidas inter-geracionalmente, por assim dizer, de avós para neto, e trazer também a parte humana dos meus avós que eu gostaria que não ficasse em vão, por assim dizer, ou por escrever.
VV: Qual a tua fonte de inspiração quando escreves poesias?
JR: A poesia tem duas grandes vertentes em mim, uma é a natureza, o contacto com ela, é uma coisa que gosto muito, do mar, das montanhas, de flores, animais, tudo que seja da natureza encanta-me, e dali vem uma inspiração muito forte, e as pessoas, vivências. Mas, falo da vivência pura. Viajo muito entre as ilhas, principalmente as do barlavento e procuro sempre nos meus tempos livres ter contacto com as pessoas, “com os nativos”, tentar “beber” um pouco daquela vivência, das tradições, do folclore próprio, das ilhas e das regiões dentro de cada ilha, que é uma coisa que me fascina. Pôr-me no lugar das pessoas e tentar percebê-las, na sua forma como vivem, no seu todo.
VV: Os poetas têm uma forma mais humanista de ver o mundo. Como vês o mundo?
JR: Eu vejo o mundo dicotômico, consigo ver o belo em qualquer detalhe ínfimo que se me apresente, porém revolto-me com algumas coisas que tenho vindo a viver e tenho vindo a ver, que muito sinceramente revoltam-me. E eu acredito, assim como muitos poetas também assumiram como tal, que a escrita tem que ter um caráter de revolta, de rebelião, não no sentido violento, mas de dar vez e voz a quem não a tenha e também romper e mudar paradigmas. Para mim a escrita tem esse poder de mudar paradigmas, portanto vejo um mundo dicotômico.
VV: O que tu vês e faz-te revolta?
JR: Uma das coisas primordiais, posso dizer nesta parte, é a pobreza. Cresci numa zona onde eu vi a pobreza de perto, com crianças, uma vizinhança inteira, pessoas que passavam dificuldades. Não diria pobreza extrema porque o espírito de entreajuda sempre falou mais alto, mas é algo que muito me assola e faz-me pensar em querer um mundo melhor. Ver pessoas a passarem dificuldades é uma realidade cá na nossa terra, apesar de muito se querer pôr as tais cortinas sócio-económicas, mas quem como eu vai a fundo, como já tinha dito anteriormente no contacto com as pessoas, vê o “modus vivendi ” das populações e a pobreza é uma das coisas que mais me afetam, e tenho intervindo desta forma na escrita como também na parte técnica tenho intervindo no mundo das construções para que, pelo menos, as pessoas vivam melhor, no que eu puder.
VV: És pai. O que é para ti ser pai?
JR: Ser pai para mim é um renascimento acima de tudo. E um ponto de viragem no ser humano, que se renasce enquanto… Não é só a parte genética que se vê, mas a parte que se sente como a continuação do próprio ser fora do corpo. E isso traz sérias responsabilidades, traz algum medo, traz alguma inquietação, mas lá no fundo traz um sentimento de preenchimento, de sentir na vida muito profundo…. como é que hei-de dizer… é uma coisa que… oh pá, acho que é inexplicável no seu todo, mas que com palavras o que posso lhe dizer é um sentido que se leva na vida que é renascer e reescrever a nossa história num outro capítulo. É um marco.
VV: Como vês a mulher cabo-verdiana?
JR: A mulher cabo-verdiana para mim é uma guerreira, de uma luta silenciosa. Eu cresci vendo a minha avó materna numa luta diária, a criar os filhos, a criar os netos, com sapiência, com um conselho na ponta da língua, com um provérbio que educa, umas mãos de fada a fazer uma refeição que sirva a toda família, não só a parte do alimentar mas também a do carinho, do cuidado. Digo que nela tenho todas as profissões do mundo e ela sorri, apenas, quando assim o digo. Digo-lhe: “tens em ti a economista, a cozinheira, a costureira, a enfermeira…”
Portanto tenho para mim que as mulheres cabo-verdianas têm uma fibra muito forte e muitas das vezes não é valorizada como devia ser. Acredito que há uma romantização desse papel, mas que na prática devia-se dar o seu devido valor, como deve ser porque somos todos filhos de alguma mulher caboverdiana. A partir daí é uma expressão que deveria existir mais profundamente, enraizada dentro da nossa cultura e não só esse romantismo na música, do nosso folclore por assim dizer.
VV: Dos poetas nacionais qual deles chama-te mais atenção e porquê?
JR: Eu tenho dois, o Corsino Fortes e o Arménio Vieira.
Corsino Fortes pela obra dele que venho lendo cada vez mais, é uma obra para se ler e reler. A cada vez que leio é como se fosse uma obra diferente. Não sei se outras pessoas partilham disso mas ele tem uma profundidade poética muito grande, ele tem uma simbologia cabo-verdiana, que leva com ele para um mundo abstrato, etéreo. Consigo viajar com ele, pelo menos eu, e inspiro-me muito na forma que ele consegue meter a caboverdianidade com seus problemas e valores, é uma poesia muito profunda, muito marcante e muito sincera. Ler Corsino Fortes é como se eu estivesse à frente dele a conversar comigo.
Arménio Vieira porque eu acho que ele tem uma poesia rebelde, muito marcante, é uma poesia enérgica, e os dois estando cada um num extremo, acabam por me atrair muito, são duas vertentes da poesia que eu admiro muito. Poesia de reivindicação, de rompimento, de paradigma…. Eh pá! não tenho como explicar. Há outro também, o Kaká Barbosa, ele tinha também uma poesia muito marcante até, muito terra a terra, enraizada, dentre outros…
VV: Como vês a família cabo- verdiana?
JR: A família cabo -verdiana para mim, a pura família cabo- verdiana é unida, pelo que se sente, em cada gesto, cada detalhe, cada toque, cada proximidade. E uma coisa que tenho vindo a notar, é que se tem perdido isto ao longo dos tempos. Venho notando que cada vez mais, as famílias estão-se a tornar mais fragmentadas, mais separadas no sentido físico e etéreo da coisa, e lá no fundo sei que esses valores poderão ser resgatados porque a família típica cabo-verdiana é de entreajuda, de amor e carinho, de compreensão. E como eu digo, a família é a primeira escola, é a forma como eu vejo a família, uma escola contínua,
uma aprendizagem contínua que uma pessoa tem e vai passando, dos mestres anciãos e depois volta a passar quando já tiver alguma receptividade dos outros membros mais novos. Deverão dar uma continuidade aos valores e princípios que não se deve perder. É a forma como eu vejo a família cabo-verdiana
