Alia Santos, “os jovens talentos devem dar continuidade ao legado deixado por grandes homens da música tradicional.”

Alia Santos, “os jovens talentos devem dar continuidade ao legado deixado por grandes homens da música tradicional.”

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Para Alia Santos, os jovens talentos devem dar continuidade ao legado deixado por grandes homens da música tradicional. Promotora cultural no renomado espaço na capital, “Quintal da Música”, descobriu vários talentos, durante largos anos, através da actividade cultural “Talento Jovem”. Todos ou quase todos já frequentaram esse espaço muito animado, por detrás de todo esse mesclado de gastronomia e música, encontramos Alia Santos.

VV: Quem é Alia Santos do Quintal da Música?
AS: Alia Santos do Quintal da Música (QM), é administradora do Quintal, cozinheira, chefe de cozinha, promotora cultural.

VV: Há quanto tempo és administradora no QM?
AS: Há, 17 anos.

VV: Nesse percurso de 17 anos, que feitos tens a contar, sobre a música nesta casa?
AS: Há muita coisa para contar sobre a cultura, em especial a música, porque durante todos esses anos, que estive à frente do QM, passaram muitos músicos não só nacionais, mas também alguns estrangeiros, de países como França, EUA, Suécia, Brasil, Angola, Senegal, etc… Sobre Cabo Verde foi sobretudo a música tradicional, mas ouviu-se quase todo o estilo musical de Cabo Verde. Também descobrimos muitos talentos, através da actividade “Talento jovem”, iam lá tocar e assim surgiam vozes que depois vieram a ser grandes profissionais da música.

VV: Falando em músicos, o momento actual para estes profissionais está difícil. Que medidas achas que podem ser implementadas, para ajudar a atravessar melhor o momento?
AS: Os músicos têm estado a atravessar momentos muitos difíceis, a maioria deles, porque alguns já criaram certas alternativas para resolverem esse problema. Não, é uma solução muito “grande”, mas pelo menos tem estado a fazer “live” (shows online). Algumas pessoas fora do país, tem estado a colaborar com eles nesse sentido, assim sendo alguns têm estado a beneficiarem-se disso. Mas, nem todos conseguem ajudar, porque também não tem condições para ajudarem a todos eles. Entretanto, acho que a situação vai-se melhorando porque eles próprios acabaram por criarem as suas condições. O que penso futuramente, é que devem organizar mais, porque não estou a ver outra forma de resolverem os seus problemas. Passando por criarem melhores condições de forma a evitarem situações pelo que passam nesse momento.

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VV: Como surgiu ou o que aconteceu para estares à frente do QM?
AS: Foi lançado um concurso, fui vencedora. Tinha eu já um extenso currículo, contava com muitos anos na restauração, alguns anos no serviço público, nomeadamente na área da educação, possuindo alguma experiência. E, também sempre estive rodeada de música, por conta dos meus irmãos que são músicos, outros familiares também ligados ao sector da música. Na altura tinha um espaço pequeno, já ali fazia algumas tocatinas. Desde criança, cresci com música em casa, os vizinhos iam lá tocar com os meus irmãos. Lembro-me mesmo do meu pai algumas vezes ficar exaltado, dizendo que a música não é futuro, que teriam que estudar para serem outra coisa. Mas, eles gostam de música e a maioria seguiu esse rumo, e acho que fizeram bem, a de fazer o que gostam realmente.

VV: Quem são eles?
AS: Ulisses Santos, músico num hotel conceituado no Sal, Aurélio Santos residente na França, teve um grande percurso com a Lura, ele é um grande instrumentista. E, outros que tocam e cantam, como sobrinhos, uns são teclistas, outros baixistas e assim por diante. Também o Kim de Santiago que é o meu primo.

VV: Neste momento, como se encontra o QM?
AS: De momento, estamos encerrados. Logo após o estado de emergência regressamos ao trabalho, com cerca de quase dois meses abertos. Mas, é um espaço grande que acolhe não só a parte gastronómica, como também a cultural. Não tivemos aderência da clientela que permitia continuar aberta. Era, mais aos fins de semana, praticamente não havia ninguém, acabavamos por fechar cedo. Também os nossos clientes, a maior parte são pessoas mais maduras, que já tem um certo receio de sair de casa devido a esta doença. Ainda se tivéssemos turistas, porque o QM funciona nos dias de semanas, que é mais frequentado por turistas, porque os cabo-verdianos trabalham, aparecem aos fins de semana. Mas, nem turistas e nacionais, assim tornou-se insustentável manter aberta. Estamos a aguardar também abertura da fronteira, que a situação minimize, para abrirmos as portas novamente continuando a fazer os nossos trabalhos, de forma mais cautelosa. Prometemos voltar com novidades a nível musical.

VV: Em algumas palavras quem é Alia Santos?
AS: Risos… Sou uma pessoa que já fez muita coisa, trabalho desde os 17 anos, passei por vários ministérios, como secretária de vários ministros. Sou quadro do Ministério da Educação, depois investi na área de restauração, porque sempre tive jeito para confeccionar pratos, desde salgados a pastelaria, num outro espaço durante 8 anos, antes de entrar para o QM. Nasci no Picos, na Achada Igreja, ao pé do mercado dessa região, viemos para a Praia, porque o meu pai era professor, foi transferido, nessa altura tinha 3 anos.

VV: O QM promoveu a música tradicional cabo-verdiana, que apelo deixas aos músicos e às pessoas que de alguma forma contribuem para manter a tradição?
AS: Além de jovens que têm estado a cantar a música tradicional, há também um leque de compositores que deixaram esse legado, se os jovens não continuarem com essa missão a nossa música tradicional vai empobrecendo. Por isso, penso que os nossos músicos, intérpretes, jovens talentos devem continuar a levar a nossa música em frente. O QM teve sempre música tradicional, às vezes alguns colocam no seu repertório música romântica, música estrangeira, porque demos também espaço a outros estilos musicais. Mas, apostei na nossa música tradicional, com morna, coladeira, batuque, funaná.

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