“Preto” é o novo single de Ricky Man

“Preto” é o novo single de Ricky Man

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Preto” é o novo single de Ricky Man com a participação de Djodje, lançada hoje. A música surge na sequência de alguns acontecimentos, relacionadas com o racismo, que tem chocado o mundo. Entretanto, o artista e a sua produtora, já começaram a introduzir temas sobre África nas suas canções. Brevemente Ricky Man e Kady, lançam uma música que fala sobre Ndaté Yalla e Shaka Zulu.

Para ele, o cabo- verdiano deve repensar sobre o seu comportamento, que muitas vezes revela ser preconceituoso em relação ao preto. Segue abaixo a entrevista na íntegra.

VV: Conta-nos o porquê da produção da música ” preto”?

RM: O single “Preto” foi produzido há um mês atrás, pensei nisso, quando nos EUA o racismo mostrou a sua faceta novamente, desta com a morte do afro-americano George Floyd, nas mãos de um polícia branco. Foi muito chocante, decidi juntar a minha voz nessa causa na luta contra o racismo. Tivemos a preocupação de não colocar “altas” violências no vídeo, porque a música em si, tem “uma carga pesada”, fizemos questão de usar imagens de manifestações pacíficas. Imagens como a de Nelson Mandela, Martin Luther King, homens africanos que sempre apelaram ao diálogo. Entretanto, pusemos também o Malcom X, porque esse registo deve ter também um meio termo, não é nada radical, mas também nada tão pacífico assim. Porque dá uma sensação que se for bastante pacífica, não nos ouvem.

VV: A cor não define quem eu sou, em que aparecem vários artistas falando sobre isso no seu instagram, é uma campanha contra o racismo?

RM: Sim, é uma campanha promocional sobre a música. Falei com alguns artistas sobre isso, fazendo questão de escolher pessoas que sabemos, têm um discurso construtivo acerca desse tema. E, não pessoas radicais, por assim dizer. Não queremos ódio racial, mas sim tocar na ferida, mas de uma forma construtiva.

VV: E qual é a tua opinião sobre o racismo, sendo que vives na Europa. Sentes o racismo ali?

RM: Eu costumo dizer, que racismo é burrice. Para ser sincero, comigo nunca senti “a cena do racismo”. Nasci em Portugal, passei boa parte da minha infância na Guiné e Cabo Verde., filho de mãe crioula e pai português. Para mim, a questão de cor nunca me incomodou, porque a cor não “me diz nada”. Aliás sempre tive esse pensamento, na verdade desde que comecei a consciencializar mais sobre as coisas que estavam a acontecer, posso dizer claramente que acerca de sete meses, passei a prestar um bocado mais de atenção nisso. Desde sempre existiu o racismo e que desde sempre foi institucionalizada e sistêmico. Então, é algo que causa-me revolta, porque para mim somos todos iguais, e obviamente isso “mexe-nos com a cabeça”. Por exemplo num sector, pessoas com a mesma capacidade, mas não exerce determinada função, só pelo facto da sua cor de pele, isso causa revolta. Porque é que para nós o facto da Ministra de Justiça de Portugal ser uma preta, é algo grande para nós? Enquanto que deveria ser algo normal. Não consigo dar-te uma definição do que é o racismo para mim, mas digo-te que o racismo causa-me revolta.

VV: Em Cabo Verde, como é que vês os cabo- verdianos a lidarem com o racismo?

RM: Nós precisamos aprender muito sobre nós. Dou-te um exemplo; há pouco tempo atrás, no tempo da quarentena, houve “live” de uma pessoa, cujo o tema era o racismo. Muitas pessoas comentavam, mas sobre o racismo na Europa. Comentei dizendo que devemos também começar a ver o nosso lado. A forma que tratamos as pessoas oriundas de outros países africanos, em que os chamamos todos de “mandjaku”, não há maior preconceito/racismo de que esse. Porque “mandjaku” é uma tribo, e muitas das vezes podemos estar a ofendê-las, porque podem não se identificar de nenhuma forma com o “mandjaku”. Existe racismo em Cabo Verde, só que na verdade para essas pessoas é normal tratarem um imigrante africano da forma que é tratada, isso é também uma forma de racismo. Acho que temos de pensar bem, dentro da “nossa casa primeiro”, para quando sairmos fora tivermos mais propriedade quando falamos. Temos ainda outra questão, eu já ouvi alguns relatos de pessoas de algumas ilhas, as que tem um tom de pele mais claro, mais para branco, não gostam de misturar com pessoas mais pretas, mais negras, isso também é racismo/ preconceito. Isso existe em Cabo Verde.

VV: Fala-nos um pouco sobre o conteúdo da mensagem, da música “Preto”?

RM: A primeira parte da música diz: Eu já me calei, mas agora vão-me ouvir. Posso até temer, mas não vou cair. No fundo é isso, basta as pessoas ouvirem com atenção a letra, vão se aperceber que é um grito de revolta. Abordamos também um pouco sobre a história da supremacia branca, essa parte o Djodje entre cantando que a supremacia nos causa ânsia, que durante séculos fomos um povo acorrentado, não só fisicamente e também mentalmente. Começarmos a pensar porque na escola aprendemos sobre o mundo Ocidental, o europeu, porque não tivemos uma educação escolar, mais virada para o conhecimento sobre o continente africano? Basicamente sobre isso que a música aborda o tema racismo, ao mesmo tempo também do orgulho em ser negro.

VV: O que é para si, orgulho em ser negro?

RM: Nós somos uma raça tão subjugada, e eu digo que tenho orgulho em ser negro. Da mesma forma que o branco tem orgulho em ser branco, eu também tenho orgulho em ser negro. Ok… que eu sou filho de uma mistura, mas na realidade toda a minha educação e tudo o que aprendi veio do lado africano, claro que teve alguma influência europeia. Mas, na Europa sou visto como um africano, e não há nada que me enche de orgulho mais do que isso, da história de África, da resiliência do povo africano. De saber de tudo que “passamos, mas mesmo assim estamos aqui”. Vivi alguns anos na Guiné, quando vejo como é que os anciãos passam-te valores como o respeito, o conhecimento, do que recordo quando falava com os mais velhos, é disso, é um motivo de orgulho para mim. Essa pergunta aqui, quando pedi ao pessoal para fazermos esse vídeo, houve esse debate, a de questionar a uma pessoa, o que te dá orgulho em ser negro? Parto do princípio que é o mesmo que dá orgulho a um branco em ser branco. É ser! Não troco a minha “cor” por nada, por mais que exista o racismo, por mais que somos subjugados. Mas, é uma pergunta de difícil resposta, acho eu.

VV: Que mensagem deixas para todos os africanos?

RM:Para valorizarmos mais o que é nosso. De há 7 meses para cá, nós também a forma como compomos a nossa música, estou a falar de nós, porque a nossa produtora está cada vez mais virada para a África. Nesses últimos 7 meses, crescemos mais nesse aspecto, na sequência dos acontecimentos racistas que ceifaram a vida de alguns jovens negros. Há uma música que vou lançar com a Kady, fala sobre Ndaté Yalla e Shaka Zulu. Sentimos que já estamos a ir pesquisar sobre África. No meu caso por mais que canto músicas pop, com muitas influências europeias, mas também de África, por ter o género afro-house. Valorizar a nossa africanidade, especialmente em Cabo Verde, deixarmos de “paranóia”, quem pensa que não somos africanos. Somos mistura, mas se pegarmos os nossos hábitos e a nossa cultura, tem muito pouco de europeu. O funaná, e outras expressões culturais, não tem nada de europeu, mas a pura África. É isso, valorizar a nossa africanidade.

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