O Estádio da Várzea foi sempre palco para várias manifestações culturais na capital, mas hoje, o ambiente foi totalmente de crispação. Agentes culturais, homens e mulheres da música, da arte cénica, do teatro, do entretenimento, técnicos da área cultural e outros mais juntaram-se para fazerem valer as suas reivindicações.
“Agora querem nos classificar de interesseiros, ou pessoas que só querem ver a questão económica”, diz o representante dos agentes culturais Mário Bettencourt.
A maioria dos manifestantes vestiram-se de preto, como protesto, para demostrarem o seu descontentamento perante 10 meses, sem trabalhar.
A vice & Versa entrevistou o representante dos agentes culturais, Mário Bettencourt sobre o objectivo da manifestação, este declarou que o objectivo principal é chamar a atenção, das autoridades para que chegarem num compromisso por forma de ver se começamos a trabalhar, porque estamos parados há 10 meses, todo o sector completamente parado. Alguma actividades e eventos “timidos”, uns show cases e coisas pequenas para fazer, mas a grande maioria está parada e sem funcionar. E, então o que nós pretendemos de facto e essencialmente é mostrar que não estamos satisfeitos com o estado natural das coisas e que queremos contribuir na discussão e nas decisões das formas como poderemos retomar as nossas actividades, criando assim condições não só para as empresas, mas também para os músicos, e todos os parceiros do sector para poderem voltar a trabalhar. Não estou a dizer plenamente como fazíamos, mas progressivamente até chegarmos a um ponto ideal que será quando de facto se conseguir combater este vírus e termos as condições de funcionar livremente como todos desejam. Entretanto no inicio da pandemia, em Março do ano passado, Bettencourt afirma que houve um encontro alargado com o Primeiro-Ministro, a Pró-empresa, onde manifestaram todo o sentimento em colaborar na luta, porque na altura ainda estava-se na luta e que ninguém pensava que chegaria a este ponto. “Nós pensávamos que seria uma coisa que poderia em 3, 4 meses estar ultrapassada, apresentamos um documento com uma série de propostas, de acções que poderiam ser usadas a cabo. Tivemos outro encontro com o sr. Vice Primeiro Ministro, o Primeiro Ministro e o Ministro da Cultura, em que também reforçamos o que havíamos falado antes e acrescentando outras informações, que nos pudessem ajudar a chegar a um consenso equilibrado entre as partes, e podermos voltar a funcionar. Foi um documento apresentado em 3 fases e em cada fase seria feito uma determinada acção. Eu, acredito que algumas foram feitas sim, como o caso das moratórias e das ajudas especificas para o sector, mas há outras fases que não tiveram seguimento. Eu, acredito que estamos aqui nesse momento por que não se levou em consideração aquilo que propusemos em tempo.
Ressalta ainda que ao contrário do que se tem dito, os agentes da cultura, não pretendem fazer eventos em massa, sabendo que seria um ambiente propicio para a proliferação do vírus. “Nós queremos fazer espetáculos controlados dentro das normas que são emanadas pelo estado, do distanciamento, das regras sanitárias, enfim cumprindo tudo o que o governo tem aconselhado. Se reparar fomos os primeiros a parar, os primeiros a abordar o governo em relação a isto, sempre cumprimos. Agora querem nos classificar de interesseiros, ou pessoa que só querem ver a questão económica, não. Nós também queremos ver a questão económica porque isto depende da vida de outras pessoas, depende da vida de muitas famílias e depende da continuidade de muitas empresas, porque acreditem se continuar nesse estado de coisas daqui 1 ou 2 meses vão ter muitas empresas que vão ter tirar pessoas do trabalho definitivamente, e muitos terem que fechar. Questionado se acredita após essa manifestação, se algo pode mudar, chegando-se em um consenso, responde que, eu acredito, porque acredito no bom senso das pessoas, eu creio que as pessoas que estão neste momento a liderar este país tem bom senso e veem também que todo o país será prejudicado se não tomarem uma decisão que satisfaça todas as partes. Não podemos limitar a dizer que o vírus e primeiro a saúde, mas a saúde sem as pessoas não é nada. Não estamos a dizer sobre as mortes, mas quando uma pessoa está falida moralmente, psicologicamente, emocionalmente, o que é que resta, remata com este apelo.
Para o dj Banzi Pires, um dos elementos do grupo de evento, “Sigui Sabura”, é preciso mais consciencialização do que é a cultura, e o que o sector da cultura contribui pelo Produto Interno Bruto (PIB) de Cabo Verde. Realça também a organização das instituições do estado, como o IGAE, a Policia Nacional e outros que estão constantemente com ordens diferentes, prejudicando assim o pouco funcionamento que tem tido derivado de não terem uma posição acertada em questões como horário, licenças etc… Explica também que no caso de eventos existe a questão de números de pessoas, que mesmo sendo 100 o limite, depois não será viável manter os trabalhos porque acarretam custos que não são suportáveis com reduzido número de pessoas. Para a jovem empreendedora Helga Ortet, da PassID, querem trabalhar, esperando adaptações também neste sector como houve em todas as áreas. “Estamos aqui a apelar o nosso direito de trabalhar, mesmo com limitações, mas queremos trabalhar de “qualquer jeito”.
Vários outros artistas conhecidos como Djodje, Batchart, Eder Xavier, Fattú Djakité, Solange Cesarovna, Kady entre outros marcaram presença.
De salientar que esta manifestação foi a nível nacional, tendo acontecido também em São Vicente, Sal. Agora é esperar para ver se a cultura terá dias melhores.








