Adê – Vice & Versa https://viceversa.cv Revista Online Mon, 02 Nov 2020 20:31:46 +0000 pt-PT hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.0.12 https://viceversa.cv/wp-content/uploads/2020/10/cropped-Logo-3-32x32.jpg Adê – Vice & Versa https://viceversa.cv 32 32 Quem é Adê? https://viceversa.cv/quem-e-ade/?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=quem-e-ade https://viceversa.cv/quem-e-ade/#respond Thu, 29 Oct 2020 03:40:33 +0000 https://viceversa.cv/?p=208
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Numa pequena conversa com o músico Adê, ficamos a saber um pouco deste cabo- verdiano que reside na Barcelona, há mais de 10 anos, mas que nunca perdeu a sua ligação com Cabo Verde, em especial o Maio, a sua ilha Natal. 

Ade é aquele rapacinho lá do Djarmai, que vive na Espanha há 13, 14 anos, vindo para estudar em princípio para Canárias, mas depois fiquei 1 ano em Barcelona. É uma pessoa muito ligada, à sua terra, por mais que esteja muito tempo fora de Cabo Verde, mas sempre ligado, ao Maio em concreto.  No mundo da música cultural desde há muito, desde os 12 anos, sempre tive uma preocupação e sensibilidade de encarar a música culturalmente. 

Maio é uma ilha pequena, as pessoas têm uma certa sensibilidade para a música, concretamente pela viola. Cresci na minha zona Fontona, havia muitas pessoas que tocavam violão, e na minha família, lembro-me que naquela época, os meus pais tinham o gira disco, ouvíamos muita música do Ildo Lobo, Tito Paris, sobretudo aos fins de semana. Desde criança comecei a ganhar paixão pela música tradicional.

O nome do meu segundo álbum é “Hello Cabo Verde”,  “Karabiloque” é o single que lancei agora. “Karabiloque” é um nome que as pessoas de Calheta deram a um peixe, mas nós na vila a chamamos de “Karadxa”. É um peixe venenoso, então “Karabiloque normalmente, de acordo com o que Tibau contou-me, na sua infância piscavam-no, mas só por diversão, pois sabiam que era venenoso, impróprio para comer. A composição de “Karabiloque” é de Tibau Tavares,  interpretada por mim. Tivemos o primeiro contacto próximo, faz 3 anos, em Tenerife, Canárias, conhecia-o obviamente, mas foi nessa altura que mostrou-me as suas composições. Dai pedi-lhe para contar-me sobre a música “Karabiloque”, em que me identifiquei com a história da música. Basicamente todas as crianças de Cabo Verde, neste caso no Maio, uma ilha pequena, vivemos aquela fase de partilhar as tarefas domésticas com a nossa mãe. 

Ás vezes quando nos dão uma tarefa, por exemplo comprar açúcar, no caminho brincávamos, íamos distraindo, algumas vezes quando chegávamos levavamos aquela porrada (risos). Portanto “Karabiloque” é mais ou menos uma história parecida, retrata a história de duas crianças.

“Hello Cabo Verde”, é aquele chamamento, como sabemos a maioria dos cabo-verdianos vivem fora, tem uma diáspora enorme fora, e todos nós temos aquela necessidade de regressar à terra prometida, como se diz. Durante os 3 anos, do meu primeiro álbum, descobri esse processo de adaptação, mais pela busca de identidade. Nesta busca, surgiu-me essa necessidade de uma música com uma identidade mais forte, cabo-verdiana, sobretudo maense. Então, foi ali que transformei o álbum, num estilo de músicas com morna, coladeira, tabanka, funaná, finaçon, enfim. Depois, fiz a música “Hello Cabo Verde”, acredito que todo cabo-verdiano se identifica, porque fala das vivências dos cabo-verdianos, de vendedores ambulantes, de agricultores, de pescadores, é uma homenagem a todos os cabo-verdianos que levantam no seu dia- a dia para sustentar a família. Estou há um ano, em Barcelona, quando cheguei a Espanha foi via Canárias, vindo estudar farmácia, depois desenvolvi o meu primeiro álbum “Branco na Preto”, em 2017, fiz toda a produção aqui com músicos canários. Toquei no Atlantic Music Expo (AME), 2017, em Cabo Verde. Depois vim para Barcelona há 1 ano. Tive a necessidade de vir para Barcelona, que está mais centrada na Europa, tem muitos músicos de várias partes do mundo, tanto Cuba, Brasil, África Continente, mesmo espanhóis e outras partes da Europa, então aqui existe muita facilidade em trabalhar com sons diferentes. No meu estilo de música, faço muita fusão, de todas as influências, desde ritmos tradicionais cabo- verdianos, e outros sons que ouço no meu dia a dia, a partir daí faço uma fusão, que resulta numa música tradicional, mas com uma linguagem moderna. Não quero dizer moderno, para não ser ousado, mas é moderno sim, nota-se que é uma fusão, mas dentro dessa fusão o cabo-verdiano identifica-se rápido com os sons. 

Saí para estudar, mas tenho de ser sincero que nunca tive nos meus planos terminar de estudar e regressar a Cabo Verde. A música sempre esteve dentro de mim, apesar de, para dizer aos seus pais, quero terminar de estudar e ser músico, estudar conservatória, hoje, não sei, mas antigamente era difícil os pais apoiarem nesse sentido. Uma das preocupações que eu tenho como maense, é dar mais visibilidade à minha ilha. Quero ser um embaixador cultural de Cabo Verde, mas destacando o Maio. Quero apresentar a vivência das gentes do Maio, a forma de ser, e como digo não somos “badius nem sampadjudo”, então ficamos entre esses “2 mundos cabo-verdianos”. Acredito que muitos cabo-verdianos não sabem coisas sobre o Maio, então quero trabalhar nesse sector. As pessoas do Maio são tímidas, e essa timidez das gentes do Maio, vai mesmo pelo lado vergonhoso, de uma forma humilde quero dar aos jovens do Maio a sua referência no sentido de verem que com sacrifício, esforço, podes conseguir algumas coisas que projectamos na vida. Se perguntares a qualquer pessoa do Maio, dizem que não são “sampadju nem badiu” mas que consideram-se maenses, porque temos vivências de Santiago, e a outra parte que é a Boavista, por ser povoada por esses dois, e mesmo na forma de falar temos expressões de Santiago, mas de forma mais “suave”, uma variante diferente. Também temos aquela morabeza, estive em todas as ilhas de Cabo Verde, não porque sou maense, mas acredito que somos ainda das poucas ilhas que conserva a morabeza.

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